Estrangeirismo é a incorporação de palavras ou expressões de uma língua estrangeira noutra língua. É uma prática comum em diversas línguas, especialmente no português.
es·tran·gei·ris·mo
nome masculino
1. Emprego de palavra ou frase estrangeira.
2. Palavra ou frase estrangeira incorporada numa língua.
3. Estrangeirice.
Os estrangeirismos podem surgir devido a influências culturais, tecnológicas ou comerciais, refletindo a globalização e o contacto entre diferentes povos e idiomas.
O uso de estrangeirismos pode enriquecer o vocabulário, oferecendo termos precisos e específicos que não possuem equivalentes diretos em português.
No entanto, é importante utilizá-los com moderação para não prejudicar a integridade da língua e garantir que a comunicação seja clara e acessível a todos os falantes.
Estaremos a ficar com demasiada afeição às palavras estrangeiras?
A língua é um elemento fundamental da identidade de qualquer pessoa.
Patriotismo à parte, é bom falar e escrever na nossa língua – português (de Portugal). Afinal, foi nessa língua que dissemos as primeiras palavras, escrevemos as primeiras frases, criámos as nossas memórias de família e conhecemos os nossos amigos de infância.
Porque haveríamos de descurar isso?
Para parecermos mais cultos ou inteligentes?
Para sentirmos que fazemos parte de um grupo, para mostrar que conhecemos a gíria?
Porque ouvimos alguém — supostamente entendido em determinada área profissional — a falar de outra forma?
Utilizar termos noutra língua (nas últimas décadas é o inglês que está no top) pode parecer espetacular, mas acaba por dar um ar ostensivo e mostrar que não nos demos ao trabalho de procurar a palavra correta em português.
Falar e escrever em português revela mais conhecimento e cuidado na comunicação, o que acaba por ser mais profissional, respeitável e elegante.
Se vamos escrever numa língua, seja ela qual for, que se escreva nessa língua. Não seria estranho afirmar “I have saudades of you“?
Se temos uma palavra portuguesa para expressar um conceito, por que razão haveríamos de usar um estrangeirismo? Porque nos soa estranho utilizar determinado termo em português?
Se for por isso, o meu conselho é começar a usar a palavra portuguesa e garanto que, passando pouco tempo, o que vai parecer estranho é usar outra palavra que não a portuguesa.
Não seria estranho ir a uma padaria e pedir meia dúzias de breads?
Provavelmente, o funcionário até compreenderia o nosso pedido, mas suspeito que iria achar-nos muito snobs.
Como em tudo, há exceções
Tal como a palavra “saudade” em português, há palavras que apenas retêm todo o seu significado se pensarmos nelas na sua língua-mãe. Esses estrangeirismos mantêm-se inalterados e podem ser usados com segurança, devendo ser escritos em itálico ou entre aspas.
Design, por exemplo, é uma palavra rica, que engloba todas as traduções que poderemos imaginar. “Conceber”, “desenhar”, “pensar”, “conceptualizar” ou “projetar”, por exemplo, dão uma ideia do que se pretende transmitir, mas sente-se que falta algo, que são palavras incompletas para expressar todo o conceito.
Design, para mim, é tudo, desde ter a ideia até à forma como funciona, passando pelo desenho da peça ou o fluxo do serviço. Nenhuma daquelas palavras em português dá a mesma plenitude.
Por outro lado, há palavras e expressões que são corretas em português, mas que não é comum usarmos de determinada forma. Por exemplo, palavras como “melhoramento” (melhoria) ou “competidor” (concorrente).
Para que serve esta lista de estrangeirismos?
Há vários motivos pelos quais me dediquei a escrever este texto e passei várias horas a listar os estrangeirismos e respetivas traduções (as boas e as más).
1. O primeiro é porque lido diariamente com profissionais de marketing digital, comércio eletrónico, informática e design e oiço constantemente coisas como “as empresas precisam de inovar”, “fazem tudo como antigamente” ou mesmo “é tudo em papel” e pergunto-me como é que queremos trazer a inovação para essas empresas se começamos a utilizar jargão técnico que as pessoas desconhecem (e ainda o fazemos noutra língua para agravar).
Por exemplo, não é mais fácil de entender se afirmarmos que “é necessário ter uma estratégia de conteúdos e publicar regularmente nas redes sociais, estando atento ao desempenho”, em vez de afirmarmos que “é necessário ter uma estratégia de content marketing e fazer posts regularmente em social media, estando atento à performance“?
Pois é…
2. O segundo motivo é mais altruísta. Quero ajudar essa gente boa a expressar-se corretamente em português (o de Portugal), não só porque é bonito mas também porque temos de fazer apresentações para clientes importantes, diretores de outras equipas e gestores ou administradores de empresas – e estas pessoas ligam muito a isso.
Em marketing digital, comércio eletrónico e informática a situação é gritante (suspeito que noutras áreas também, mas é com estas que lido diariamente) e acredito piamente que se pode comunicar eficazmente em português sem perder significado e sem perder credibilidade — sinceramente, até se ganha.
Faço isto, não por ser um erudito na área, mas porque também eu, ingenuamente, fiz parte do grupo daqueles que acham que em estrangeiro é melhor (porque dá a entender que conhecemos os termos hip e sabemos falar de forma cool durante algum tempo – é top! Tive sorte de estar rodeado por pessoas que tiveram a boa-vontade de me ajudar a escrever e a falar melhor em português.
3. O terceiro motivo tem uma perspetiva anti-orwelliana. O português tem muitas palavras e, com tanto ruído e distrações nos canais digitais, nem pensamos qual é o termo mais adequado em português. Utilizamos o que ouvimos ou lemos numa peça qualquer e que nos parece adequado para expressar o conceito que queremos transmitir.
4. O último motivo é de caráter ligeiramente egoísta: fico com azedume ao ouvir tanta gente boa a usar estrangeirismos porque acha que vai parecer mais erudito, mas que acaba a parecer ridículo. Por outras palavras, bullshitting… (Não resisti à ironia.) 🙂
Se o texto transparecer um tom patriótico, é pura coincidência. Considero que devemos comunicar bem e sermos rigorosos em qualquer língua. Calhou da minha língua-mãe ser o português, mas já que o é, quero dar-lhe bom uso.
O objetivo ulterior desta lista é ajudar outros profissionais a falar e escrever melhor.
Recursos adicionais
Aproveito para recomendar alguns recursos que me ajudam a escrever e falar em português da melhor forma, sem estrangeirismos.
Ciberdúvidas da Língua Portuguesa – Consultório em linha/online (confesso que “em linha” é daquelas expressões que me está a custar utilizar porque ainda me soa estranho, mas é uma questão de hábito);
A imagem que me vem à cabeça quando oiço a expressão “comunicação em massa”.
Lista de estrangeirismos e tradução correta para português
Ou alternativas quando a tradução soa mal.
As expressões estão ordenadas alfabeticamente, seguidas da tradução que considero mais adequada. Também incluí as que considero menos adequadas e que não recomendo o uso.
Algumas das traduções apresentadas como “erradas”. Estão assim identificadas porque, apesar de estarem corretas em termos gramaticais/ortográficos, não são aquelas que costumamos utilizar (pelo menos no meu entender).
Uma língua tem muitas línguas, por isso não é de estranhar se determinada tradução favorecer um regionalismo em detrimento de outro (ficarei contente em acrescentar mais se mos fizerem chegar).
Estrangeirismo
Tradução correta ou recomendada
Tradução errada ou não recomendada
Achievement
Conquista
Feito
Realização
Obtenção
Alcançar
Atingir
A lista é atualizada sempre que me lembro de um novo termo. Do mesmo modo, está aberta a melhorias e contribuições. Para o envio de sugestões ou de traduções mais adequadas, bastacontactar-me via email ou Linkedin.
Espero ter contribuído para melhorar ou enriquecer a escrita de alguém.
Termino com uma algaraviada em formato musical.
Bárbaros em “Passerelle” – Fausto
um ar "negligé"
furtivo em "dress code"
"cool calm and collected"
outro "enfant gatê"
"whisky on the rocks"
cara estampada em qualquer
"hall"
mesmo imprimida em
"outdoor"
o aedo é "low profile"
o bardo vai "démodé"
o propriamente dito
é "forever" "varietés"
no "glamour" da cidade
no "jet set" a novidade
do atirador furtivo
perdão
do "sniper" a abater
em "open space"
"just in time"
e no "prime time"
e então
o cantor não tem "it"
a voz canora "in blue"
se sou mais eu e tu
e um "partner" todo a nu
sou eu mais tu e "true"
mais adoramos um "spin-off"
erguido em nosso "buzzword"
o "chairman of the board"
em "scoop" em "guide lines"
no "damage control"
da maldição do jacobino
fica aqui já pelas custas
o "study case"
o valdevinos
"out" e "in" na volúpia
do concúbito
um "hat-trick"
bem chique
na "flash-interview"
que mais podemos nós
fazer
do "to do"
somos a "entourage"
brilhante "brain storm"
"made in" em "New York"
"opinion makers" e
"follow-up" informe
e por falar em português
o "flash-back" é amanhã
o "sponsor" do artista
no "casting" da cortesã
na de Rimbaud "en passant"
na de Cervantes era dantes
na de Camões p’ra depois
valha o William
se não nunca
falaríamos nunca mais
jamais
no "ranking" de culturas
império
"shooting-room"
em língua pura
e em vez das quatro
um
e melhor seria
um outro "boom"
via "e-mail"
e em vez do "bug"
bedum
"wait and see"
"me"
mi